8.6.16

J.K. Rowling, Jack Thorne e John Tiffany falam a respeito de #CursedChild em entrevista ao The Guardian

A autora J.K. Rowling, o diretor John Tiffany e o dramaturgo Jack Thorne deram uma entrevista ao The Guardian falando sobre a peça teatral, Harry Potter and the Cursed Child. Estando na semana de estréia (não oficial) da peça, eles discutem como foi trazer o mundo mágico de Harry Potter aos palcos. Confira a nossa tradução a seguir.

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J.K. Rowling: o mundo de Harry Potter está sempre na minha cabeça


A autora, o diretor John Tiffany e o autor de teatro Jack Thorne passaram dois anos trabalhando de forma colaborativa na peça The Cursed Child. Na véspera do evento teatral do ano eles falam sobre levar a magia de Harry Potter aos palcos...

John Tiffany está de joelhos aos pés de JK Rowling. “Olha, eu me curvo diante de você", ele diz, sorrindo largamente ao se levantar com algum esforço. “Eu mandei colocar no meu contrato que as pessoas são obrigadas a se ajoelhar pra mim onde quer que eu vá", ela diz, gargalhando.

Essa implicância amigável, feita para os olhos do fotógrafo do Observer, que pediu ao Tiffany para se agachar desconfortavelmente em uma caixa para criar uma escala crescente para a foto, revela o quão calorosa e tranquila é a relação entre a criadora de Harry Potter e o diretor que está prestes a levar uma nova história para os palcos com a peça Harry Potter and the Cursed Child. O escritor Jack Thorne, a quem foi confiada a tarefa de escrever de fato o roteiro, entra na brincadeira. “Antes de continuarmos, peço desculpas pela minha altura," ele diz, muito acima dos outros dois.

Eles formam um trio inesperado: Rowling, loira, arrumada e elegante, usando um vestido transpassado cor de areia e botas da mesma cor; Tiffany, coçando a nuca, de jeans e jaqueta; Thorne, magro, calvo e jovialmente casual, tem um olhar intenso. Mesmo assim, a amizade e naturalidade que existe entre eles contribui perfeitamente para a colaboração que sustentaram por mais de dois anos – e que será revelada pela primeira vez na terça-feira quando as prévias começarem.

A produção, na forma de duas peças interligadas, realizada em um Palace Theatre especialmente renovado em Londres, é de longe o grande evento teatral do ano. Desde que a Rowling anunciou, em junho, que uma peça sobre seu amado bruxinho estrearia em 2016, as especulações têm sido exaltadas. A ansiedade tem aumentado pelo fato de as dicas, dadas principalmente no Twitter, terem sido escassas.

Tudo o que sabemos com certeza é que a ação começa algum momento perto do ponto em que acaba o epílogo do sétimo e último livro – Harry Potter e as Relíquias da Morte. Em suas páginas finais, vemos um Harry adulto, agora casado com Gina Weasley, levando seu filho do meio, Alvo Severo, para o trem de Hogwarts. Rony lá está com sua esposa, Hermione, despedindo-se de sua filha, Rose.

Também está Escórpio, filho do antigo adversário de Harry, Draco Malfoy.

O site não oferece muita ajuda.

Lá, sabemos que agora Harry trabalha para o Ministério da Magia e precisa lutar "com um passado que se recusa a ficar onde deveria" e que Alvo "precisa lutar com o peso de um legado familiar que nunca desejou". As informações acabam assim:

"Conforme o passado e o presente se fundem de maneira ameaçadora, tanto o pai quanto o filho conhecem a verdade incômoda: às vezes, a escuridão vem de lugares inesperados". Essas poucas revelações, contudo, provocaram uma pressa para conseguir lugares e criaram um recorde em West Wend: 175.000 ingressos vendidos em 24 horas; e isso apesar do fato de que os fãs tinham que comprar ingresso para duas peças para que pudessem vivenciar a história completa.

Até este momento, a única entrevista que Rowling, Tiffany ou Thorne irão conceder antes da peça estrear, observamos um voto de silêncio voluntário sobre o roteiro. “O epílogo do sétimo livro indica muito claramente até onde eu queria ir”, afirma Rowling, devagar. “É muito óbvio, pelo epílogo, que o personagem em quem eu estava mais interessada é Alvo Severo Potter. E vocês veem Escórpio naquela plataforma”. Ela se senta, sorridente, como uma Esfinge.

Nos encontramos em um clube londrino próximo ao teatro, apenas 13 dias antes da primeira prévia. A expectativa está aumentando – e não só entre o público. “Estou acordada desde as 4 da manhã”, diz Rowling. “Nós estávamos no teatro ontem à noite e eu vi uma cena que é crucial para mim, com figurinos, com cenário... E estava muito emocionada”,

“Jo esteve presente em muitas partes do processo”, Tiffany acrescenta. “Muitas”, ela concorda. “Mas ontem à noite foi a primeira vez que estive no teatro e vi tudo tão real. E foi... extraordinário!”

“Demos um soquinho, não foi?”, diz Tiffany, sorrindo.

“Bem, eu tentei dar um soquinho em você”, Rowling responde. “E você tentou apertar minha mão. Então não foi nosso momento mais bacana. Mas, para sermos justos, estava escuro...” “E não sou conhecido por meus soquinhos”, afirma o diretor. “Nem eu, na verdade”, acrescenta Rowling. “Eu só achei que o momento pedia”.

Essa é a forma como a conversa se desenvolve, com muitas risadas que mais parecem felicidade real do que nervosismo. Thorne lembra Tiffany que ele pediu para nunca lhe dizerem o número de dias para subir as cortinas, embora tenha incansavelmente contado as horas, minutos e segundos em um painel do site de venda dos ingressos. Mesmo assim, Tiffany parece um modelo de confiança. “Se você tivesse me perguntado há um ano como estou me sentindo hoje, eu acho que eu provavelmente diria que estaria me desintegrando em pedaços em um cantinho. Mas me sinto extraordinariamente são”.

“Você está tão calmo”, Rowling lança. “Eu estou menos calma”.

O ponto de partida para Harry Potter and the Cursed Child foi um encontro entre Rowling e Sonia Friedman, a produtora. Rowling explica: “Você pode, provavelmente, imaginar que me pedem para fazer algo mais da série Harry Potter cinco vezes por semana desde que a série terminou. Sonia só queria explorar uma produção teatral, eu conhecia sua reputação, óbvio, e sabia que gostaria muito de encontrá-la e ouvir o que tinha a dizer”.

A reunião ocorreu bem e logo Friedman sugeriu apresentar Tiffany, cuja própria carreira esteve envolvida em certa quantidade de magia, já que ele conjurou o ouro do teatro em peças como Black Watch, o musical Once e o conto de horror vampiresco Deixa Ela Entrar, que Thorne adaptou do romance e filme dinamarquês homônimo. Rowling conhecia o trabalho de Tiffany e também assistiu a ascensão da carreira de Thorne como roteirista de séries para TV This is England, The Last Panthers e The Fades, e peças características como Hope (sobre os cortes orçamentários do governo local, também dirigida por Tiffany) e The Solid Life of Sugar Water.

A ideia de contar uma nova história com esses colaboradores começou a interessá-la. “Esse é o motivo pelo qual isso aconteceu, porque eu achei que nunca mais terei a oportunidade de trabalhar com essas grandes pessoas de novo”, explica ela.


Quando ela conheceu Tiffany, percebeu que já o havia encontrado antes – em meados dos anos 1990, quando ela era uma mãe solteira pobre, escrevendo o que se tornou o primeiro livro da série Harry Potter, tomando xícaras de café que esfriavam em três cafeterias de Edimburgo. Um de seus refúgios favoritos era o teatro Traverse, onde Tiffany era assistente de diretor. "Foi um dos primeiros lugares de Edimburgo onde se podia tomar um cappuccino”, lembra-se Tiffany. “Eu estava lá encontrando muitos atores e escritores, e me lembro de ter visto uma mulher escrevendo, com um carrinho de bebê ao lado. Nós nos cumprimentamos e me recordo que uma vez Jo disse: ‘Você se se importa de eu ficar aqui?’”

“Porque eu não tinha comprado muitos cafés”, ela explica, antes de Tiffany acrescentar: “Então, mais ou menos um ano depois, eu percebi quem era. E ela não voltou mais ao café Traverse”.

Enquanto Rowling começou sua ascensão rumo ao estrelato milionário e ao status de ícone adorado pelos sete livros de Harry Potter e oito filmes neles baseados, Jack Thorne estava saboreando os resultados. “Eu era um muito Potterhead, diz ele com um largo sorriso. “Eu ainda me considero um Potterhead e espero que os Potterheads não me odeiem tanto após a peça que nunca mais me deixem ser um de novo”.

Ele era um pouquinho velho para ser uma das crianças que formava filas nas livrarias à meia noite para cada lançamento de um livro de Potter – essas crianças, que hoje têm entre 25 e 30 anos, formam o segmento mais exaltado do público de Harry Potter and the Cursed Child. Mesmo assim, ele se descrevia como um “fã de fantasia” que lia cegamente todos os livros e assistia a todos os filmes que apareciam. “Ficava na minha, usando uma camiseta dos Caça-Fantasmas, então as pessoas poderiam perceber que eu estava lá pelo gênero”, diz ele, com outro sorriso.

Tiffany não conhecia esse passado de fã quando convidou Thorne para a equipe como o roteirista de Cursed Child. “Ele me convidou quando nos encontramos no metrô, a caminho do prêmio do South Bank Show”, lembra-se Thorne. “Tão glamouroso”, Tiffany ri. “E tão apropriado, na estação de metro”, acrescenta Rowling, misteriosamente. Thorne continua: “E ele disse: ‘O que acha disso?” E fiquei meio louco na rua. Só porque sou incrivelmente tímido, ninguém nos veria e percebi que enlouqueci”.

Quando ele e Tiffany se encontraram com Rowling na casa dela em Edimburgo, estava claro que a empatia entre eles cresceu ainda mais do que simplesmente entre fã e autor. “Jack e eu somos parecidos de muitas formas”, diz Rowling. “Os dois somos - mesmo que não pareça, pois estamos animados agora – muito introvertidos e somos felizes sozinhos, e há muitos paralelos na forma como trabalhamos e senti que ele é um dos meus”.


"E nós encontramos algo em comum," ele completa, antes de pedir a ela permissão para contar a história a seguir. "Nós estávamos conversando sobre o fato das pessoas não perceberem o quão horrível é chegar aos 10 anos. Esse fora o momento em que eu me dei conta de que poderia nunca mais ter amigos. Outras pessoas teriam amigos e eu não. E eu estava falando sobre comprar um casaco: eu comprei o mesmo casaco que Matt Coxx, que era uma das crianças mais "legais" (assim era considerado pelos outros colegas) do ano e eu tive que usá-lo para ir à escola todos os dias porque minha mãe comprou-o para mim e aquele era o único casaco que eu ganharia. O casaco, no entanto, ficava muito melhor nele do que em mim e todos pensaram que eu o estava copiando."

A memória ainda o faz estremecer. E então, Rowling diz, prontamente: "E eu tive exatamente a mesma experiência. Aos 10, decidi ter o mesmo corte de cabelo de Susan Hook. Fui para a escola e todos pensaram que eu estava tentando ser Susan Hook. Que humana patética. Nós tivemos a mesma experiência de ser profundamente infelizes na nossa escolha. E isso passa a te perseguir."

Essa sensação de isolamento remete à essência do universo de Harry Potter - e por isso ele foi recebido com tanto amor. "Quando você está crescendo, é muito fácil sentir-se sozinho e inseguro," diz Tiffany. "E o que a Jo conseguiu criar, creio eu, foi um mundo no qual as pessoas se sentissem menos sozinhas."

"Absolutamente", diz Thorne, enquanto Rolwing ouve atentamente. "Eu acabei de ter um filho e minha esposa e eu decidimos chamá-lo de Elliott, porque ET salvou minha vida - o filme é sobre algo que está lá fora e é muito melhor do que você. É o mesmo que Harry e Hermione - há um senso a respeito das possibilidades que existem no mundo. A Jo apenas teceu essa mágica e criou um trabalho maravilhoso."

A profundidade de tal identificação é o que faz Rowling ser tão solícita aos fãs. "Eu nunca tive a intenção de criar uma grande comunidade, mas penso que não há um autor vivo que não gostaria de ter tanta gente respondendo ao seu trabalho," diz ela. "Foi isso que aconteceu. As pessoas entraram no mundo junto comigo."

"O que Jack disse sobre ET... esse é o porquê dele ser o cara certo para esse trabalho, ele simplesmente sabe o que faz. É a escolha perfeita. A grande razão para que as pessoas amem Potter deve-se ao fato dele mostrar que pode ir além. A sensação de que há mais disso para o mundo. Logo ali do outro lado. Mesmo com a distância evidente. Há mais. É a promessa de um outro mundo e esse mundo não precisa ser mágico, mas para uma criança solitária, uma pessoa insegura ou para qualquer um que se sinta diferente ou isolado, a ideia de ter um lugar ao qual você pertence é tudo."

A confiança e a compreensão entre os colaboradores formou um alicerce em sua criação conjunta de Cursed Child. Diante de uma série de conversas e muita escrita, Rowling contribuiu com ideias. Mas ela é bem clara ao dizer que a peça foi escrita por Thorne. "No momento em que ele produziu o primeiro esboço, eu pensei bingo, é isso." Será que ela já imaginara escrever a peça sozinha? No fim das contas, Jo está envolvida em um projeto ainda maior esse ano, o roteiro de Animais Fantásticos e Onde Habitam, que conta as aventuras de Newt Scamander nos anos 20, em Nova Iorque, décadas antes de Harry Potter ler seu livro na escola.

"Eu não sou nada arrogante. Tanto que pensei que, uma vez que tinha um dramaturgo de primeira classe se oferecendo para fazer o trabalho, deveria dizer - e assim o fiz - 'Bem, eu nunca fiz isso antes, mas farei agora.' É uma questão de reconhecer os limites da sua própria competência. Eu estive propositalmente envolvida nos roteiros de Harry Potter. Estou familiarizada com esse mundo. Não tinha tanta confiança em escrever o roteiro de uma peça, mas acreditava piamente que Jack escreveria um roteiro pelo qual eu me apaixonaria e foi isso que aconteceu. O que mais eu poderia pedir?"

Antes de conhecer J.K. Rowling, o que eu mais queria saber dela era por que retornar à história de sua criação mais famosa parecia irresistível. Depois de tudo, ela estabeleceu uma carreira de grande sucesso pós-Potter como escritora de livros para adultos, como Morte Súbita, e a série Cormoran Strike, sob o pseudônimo de Robert Galbraith, livros esses que permitiram-na explorar temas mais sérios e violentos e mostrar sua predileção por suspenses. O último, Vocação para o Mal, foi indicado a um prêmio na semana passada.

Uma vez que você conhece J.K. Rowling, fica evidente que Harry Potter jamais a deixara. "Foram 17 anos e só porque eu parei de escrever sobre isso, não significa que minha imaginação parou," diz ela. "É como estar em uma extensa corrida. Você não pode simplesmente parar, morto, ao cruzar a linha de chegada. Eu tinha algum material e algumas ideias e temas e nós três, juntos, [ela aponta para Tiffany e Thorne] fizemos uma história."

Já faz quase uma década que ela pegou um papel e uma caneta e começou a escrever o último livro da sequência. "Mas eu carrego esse mundo em minha cabeça o tempo todo," ela reconhece. "Eu nunca vou conseguir odiá-lo. Eu amo esse mundo. Mas também quero viver em outros mundos. Para ser perfeitamente honesta, eu sinto que, se eu me divertir com isso, continuarei - caso contrário, não insistirei."

Na verdade, com a peça teatal e o filme, 2016 acabou se tornando o que ela descreveu como um "ano tão mágico". "Eu sempre disse 'nunca diga nunca' e a razão pela qual eu dizia isso era, na verdade, que eu tinha pequenos fragmentos de história em minha cabeça indo em ambas as direções - em Animais Fantásticos, que se passa anos antes e nessa peça, que se passa anos depois. Então, eu ainda tenho esse material na cabeça."

"Tem sido incrível porque há raízes para lá e brotos para cá, então é uma questão de fazer isso tudo de uma maneira consistente. Nós estamos compartilhando muitas coisas entre os mundos."

Por tudo isso, ela insistiu em dizer que não poderia simplesmente haver um oitavo romance - e igualmente que ela não faria uma nova história de Harry Potter sob outra perspectiva. "Me perguntaram muitas vezes se eu faria um musical e eu não gosto de musicais," disse ela, franzindo a testa. "O teatro, por outro lado, é minha paixão. Eu acredito que esse seja um mundo sedutor - não há nada como ver um ator atuando ao vivo. Mas ninguém jamais havia me proposto algo que me deixasse tão empolgada."

"Eu acho que, como uma experiência teatral, como uma peça, será diferente de tudo que as pessoas já viram. E uma vez que o público tenha tido essa experiência teatral, eles entenderão o porquê desse ser o ambiente perfeito para a história."

Rowling, Thorne e Tiffany começaram a conversar e trocar ideias mais de dois anos atrás. Bem no início do processo, após colocarem em pauta diversas ideias e após a realização de um workshop, eles alcançaram um ponto crucial no qual se deram conta que a história que planejavam era muito extensa para ser apresentada em apenas uma tarde. "Você não teria espaço para os personagens," diz Thorne. "Seria apenas enredo, enredo, enredo."

Tiffany explica: "Embora o filme possa comer algumas partes da história, o teatro necessita de espaço e pausas. Uma vez que pensamos em dividir a peça em duas partes, a ideia pareceu imprópria, mas nós sentimos que não deveríamos mudar a história. Ficamos muito nervosos até o momento em que o público começou a comprar os ingressos e a resposta foi incrivelmente fantástica, porque o medo era que as pessoas pensassem que estávamos apenas tirando partido disso. Mas não estávamos, de maneira alguma." Rowling comenta: "Havia espaço para fazer exatamente o que tínhamos conversado sobre."

Os preços dos ingressos foram mantidos relativamente baixos - 250 assentos para cada performance custam £20 ou menos e é possível assistir as duas partes por £30. (Não é necessário comprar ingressos para assistir as duas partes de Cursed Child, embora 98% das pessoas que compraram tenham feito isso.) Os valores mais altos chegam a £65 por apresentação. Os produtores não discutiram valores, mas, para traçar um comparativo, pagava-se quase £65 para assistir, do melhor assento, Kenneth Branagh em The Entertainer, enquanto The Book of Mormon chegava a £150.


A controvérsia sobre a duração foi, então, evitada. A controvérsia em relação ao elenco, no entanto, não foi. Quando foi anunciado que Jamie Parker interpretaria o papel de Harry, Paul Thornley o de Rony e Noma Dumezweni de Hermione, toda a atenção foi focada na notícia de que uma atriz negra interpretaria um dos personagens do trio. Nas redes sociais, embora a reação da maioria tenha sido positiva, houve uma contracorrente negativa. Se Rowling se surpreendeu?

"Com minha experiência nas redes sociais, eu pensei que idiotas agiriam de maneira idiota," diz ela. "Mas o que você pode dizer? É dessa maneira que o mundo funciona. Noma foi escolhida porque se encaixa perfeitamente no papel. Quando John me disse que iria escalá-la para o elenco, eu respondi, 'Ah, isso é fabuloso' porque eu a vi atuando em um workshop e ela era fabulosa."

Desconhecida por Tiffany, quando ele fez a escalação do elenco, houve uma teoria a respeito de uma "Hermione negra" por anos. A força da reação, no entanto, o surpreendeu. "Eu não sou tão familiarizado com o twitter quanto a Jo e o Jack, então eu não conhecia o seu lado obscuro, que é terrível," diz ele. "O anonimato abre espaço para absurdos, então após um tempo eu decidi parar de ler. Mas o que mais me chocou foi que as pessoas não conseguiam visualizar uma mulher não-branca como heroína da história. É, portanto, brilhante que isso tenha acontecido."

Rowling concorda. Ela disse que sempre houve a possibilidade da Hermione ser negra da maneira que ela a descreveu; a cor da pele nunca fora mencionada. "Houve um bando de racistas me dizendo que, porque Hermione 'ficou branca' - que significa perder a cor do rosto após sofrer um choque - ela deveria ser uma mulher branca e eu tive muita dificuldade em lidar com isso. Mas acabei decidindo não me incomodar e simplesmente dizer, com firmeza, que Hermione pode ser uma mulher negra com minha benção e entusiamo."

Tiffany tem trabalhado nesse projeto por anos, trazendo consigo um time confiável de colaboradores. Para Rowling, que envolvia-se no processo na medida do possível, observando ele trabalhar com Thorne, foi um grande aprendizado. "É uma linguagem totalmente diferente para mim," diz ela. "Então, ver tudo o que Jack pode fazer no papel e seu entendimento a respeito da maneira como ele traduziria aquilo para o palco foi uma grande revelação para mim. Eu conheço muito bem os livros e filmes mas esse é um mundo completamente diferente. Jack tem acesso a uma gama de ideias que eu não tenho porque não entendo como funciona."

Thorne sorri. "Para ser honesto, desde que escrevi Let the Right One In, eu colocaria algo no papel como, 'Eles correm por uma floresta, são enforcados por uma árvore e então morrem brutalmente.' Eu escreveria apenas isso na esperança que John o fizesse. E ele faz."

O que inspira o criador, o diretor e a escritora é pensar que, da mesma maneira que Harry Potter incentivou uma geração à leitura, a peça pode introduzir um público novo ao teatro. Thorne diz: "A frase que John mais odeia é 'Eu deveria ir mais ao teatro' porque ela traz a ideia de que ir ao teatro é uma obrigação." "É como comer vegetais," Rowling comenta. "Ou ir à igreja," complementa Tiffany. "E isso," continua Thorne, como se os três estivessem em harmonia, "é a morte do teatro. Essa é uma oportunidade, creio eu, de convencer as pessoas que não são acostumadas a ir ao teatro a ter essa experiência e então descobrirem que elas querem ir ao teatro."


Esse sentimento encorajou Tiffany a fazer a peça da maneira mais puramente teatral possível. "Não é apenas um espetáculo comum," diz ele. "É, esperamos nós, algo que te puxa para dentro. É extremamente ambicioso no que se refere ao teatro, mas é também muito próximo ao público e à imaginação, o que é exatamente o que um escritor costuma fazer."

Praticamente dois meses antes da estréia oficial, que será no dia 30 de julho, todos esperam que o público mantenha os segredos em relação às surpresas da peça. "Eu passei por isso diversas vezes," diz Rowling. "E espero poder chegar lá sem muitos spoilers, simplesmente porque as pessoas terão uma experiência maravilhosa se não souberem o que esperar."

"Generalizando, os fãs de Harry Potter são uma comunidade, eles cuidam um do outro e querem que todos tenham a mesma sensação de mistério e surpresa. Então, estamos esperançosos. Mas não será o fim do mundo. Nós não seremos birrentos a respeito disso, mas esperamos poder contar com o apoio do público."

Com isso, eles saem, voltando aos ensaios, enquanto o relógio anda implacavelmente e Harry Potter and the Cursed Child torna-se, muito provavelmente, a última história de Harry Potter a surgir de forma intermitente sob uma luz ofuscante.

Traduzido por: Amelina de Aquino, Bárbara Kultchek e Isabel Dain.

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