20.9.17

Crítica - Harry Potter e a Pedra Filosofal


Olá, Potterheads. Aqui quem fala é Carlos Dalla Corte, colaborador esporádico do Profeta. Em um surto de produtividade e gratidão, resolvi, mesmo que não haja nenhuma data comemorativa em frente, utilizar de meu gosto pela escrita e por nossa amada saga, escrever, sem tempo estabelecido, críticas dos 8 filmes da saga. Com um adendo: como se fosse à época. Nada de memórias passadas, então. Você lerá o texto abaixo, e todos os outros, como se o longa tivesse lançado ontem, hoje, agora. Essa é a proposta. Espero que gostem.

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O que é magia?

Se você encucar a pessoa certa, pode obter respostas curiosas e até científicas de uma arte milenar tida como a segunda profissão existente no mundo e que viria a receber um pano de misticismo conforme a força motriz humana deixou de ser o abstrato para se tornar empiricamente lógica.

Resta-nos, então, os ordinários, a magia do escapismo, essa que obtemos através da literatura, dos quadrinhos, séries e...do cinema.

No esvaziar a mente do palatável, preencher de sonhos, fantasias e imaginações, um mundo novo e envolvente, com personagens que nos espelham e aventuras que nos fascinam, muito além do que qualquer previsibilidade mundana.

O difícil é imaginar uma história que surja e nos arrebate de prontidão com grande intensidade. E este é Harry Potter e a Pedra Filosofal, adaptação homônima do livo de J.K. Rowling, que ascendeu ao topo de vendagens britânicas até ganhar o mundo e, naturalmente, a tela dos cinemas, como um concorrente mais juvenil e acessível aos que ainda são incapazes ou inadvertidos a absorver um Senhor dos Anéis.

Poucos minutos na poltrona e, entretanto, qualquer comparação a outros companheiros de gênero deixa-se de lado, pois a recém-iniciada saga de Potter possui brilho próprio. E que brilho. Que imaginação! Um Oásis fantástico. Ou um Radiohead, se você preferir uma analogia precisamente musical.

Saída da mente de Rowling, que teoricamente deveria ser considerada uma novata, a trama dispensa qualquer imaturidade e se mostra sólida em suas convicções e nos imãs para comover o público. E isto é visível imediatamente no protagonista, Harry Potter, inicialmente retratado como um órfão mirrado e oprimido por seus tios, que inquestionavelmente o receberam com a mesma alegria com que recolhemos uma multa de trânsito.

Um personagem central frágil, portanto, cheio de dores e tormentas. Uma pessoa como nós, que anseia por algo novo, melhor. Que a vida não pode ser apenas isto. E quando Harry recebe a chance de adentrar um mundo desconhecido, um mundo onde seu nome representa muito mais do que uma criança tímida e reprimida, nós embarcamos juntos com ele, como ele, ávidos por descobrir o que há além da terra dos Trouxas, como são chamados os não-mágicos. Ou seja, nós, os trouxas.

E aí não há elogio que faça jus ao universo criado por Rowling, maravilhosamente ambientado pelo uso de tecnologia de ponta e, é claro, a competência de todos os envolvidos no longa, pois nunca é tarefa fácil transportar uma história entre mídias sem perder sua essência, quanto mais uma complexa dessas.

Mesmo que a direção do veterano Chris Columbus, que vive longe de seus melhores dias, seja, no mínimo, taxável de burocrática, o trabalho técnico, aliado à quantidade exuberante de criaturas, objetos e locais inventivos, desvia os olhos e faz de cada cena envolvendo A Pedra Filosofal como um sopro de curiosidade e encantamento.

É uma sucessão de detalhes inesperados e devidamente mágicos que nos chamam atenção - de quadros que falam e um esporte praticado em vassouras voadoras a unicórnios, trasgos, centauros e, é claro, feitiços.

Neste clima de novidades ininterruptas, o roteirista Steve Kloves não precisa de muito esforço para nos prender. Mas vale mencionar que seu texto é ágil o suficiente na mescla entre momentos de tensão com outros de horror, drama ou simplesmente embasbacamento com o que se vê.

Pois, não esqueçamos, Harry Potter é antes de tudo um filme, com história, e não um museu de exposição. Os pequenos detalhes servem como chamarizes, mas é a linha narrativa que deve nos permitir ter progressivamente mais contato e conhecimento com este mundo, assim como os personagens.

E, se Kloves amarra competentemente as palavras, o elenco merece palmas pela naturalidade com que encarna estes seres mirabolantes. Para cinéfilos mais experientes, seria redundante enaltecer nomes como Maggie Smith, Alan Rickman ou Richard Harris, mas o que faz um grande ator é justamente sua capacidade de nos surpreender em diferentes nuances. Como abraçam o papel a despeito de sua extravagância ou índole. Dito isto, Rickman está amedrontador e asqueroso como Severo Snape, professor de Poções que demonstra aversão a Harry, o que certamente lembrará ao público aquele mestre desafetado que teve em algum ponto de sua vida acadêmica.

Já Smith demonstra uma ternura quase militar, de tão rígida, como a Professora Minerva McGonagall, também "presidenta" da Grifinória, uma das quatro cadas da escola de Hogwarts, e onde é escalado Potter.

Em outro espectro, Harris encarna Dumbledore aos moldes de Galdalf e Merlim, o ancião na jornada de nosso herói; brincalhão e duro quando necessário, mas igualmente compreensivo, carinhoso e sábio. Como estamos em um capítulo de origem, ainda há muito que desdobrar destas figuras, e o rendimento dos responsáveis é preponderante para que ainda queiramos saber mais sobre eles.

E mais do que isso, balancear e trazer conforto ao mutirão de iniciados no ramo da atuação, afinal, Pedra Filosofal é um filme que retrata o início do período escolar mágico na vida das crianças, sejam elas já familiarizadas com sua "maginicidade", ou recém-descobertas, como é o caso de Harry.

No papel do tripé principal, o trio de amigos, os Hobbits da vez, temos Emma Watson, Rupert Grint e Daniel Rafcliffe, respectivamente, como Hermione, Rony e Harry, todos devidamente esboçados em sua personalidade. Ela, a sabichona, Rony, o brincalhão desatento e medroso, e Harry, o novato. Não há espaço para maiores reclamações em sua personificação, e mesmo a notável apatia de Radcliffe soa convincente em um rapaz que não sabe bem como lidar com tudo que lhe é mostrado a cada minuto. Pode ser um problema mais à frente, no entanto.

Completando o corpanzil da película, temos ninguém menos do que John Williams encarregado da trilha sonora, e assim como temos certeza de que a chuva nos molha, o maestro é garantia de impecabilidade. E portanto, com "Hedwig's Theme", acrescenta uma nova obra-prima em seu catálogo, uma faixa que pode soar tanto misteriosa quanto nostálgica e mágica de acordo com o momento, como se fosse onisciente de nossas sensações. E se acima eu disse que Kloves sabe adaptar-se bem a cada situação envolvida, Williams o ajuda muito da forma como embrulha cada momento na atmosfera inadvertidamente correta através de seus arranjos. É um gênio em ação.

Assim, mesmo com duas horas e meia de duração,  o gosto que fica é de euforia, de quem acaba de descobrir uma mina de ouro e é obrigado a voltar para casa. Você mal pode esperar para voltar lá, pois sabe que não irá se decepcionar.

Em uma de suas célebres passagens, Dumbledore diz: "Não vale apena mergulhar nos sonhos e esquecer de viver." Pois será difícil estudar matemática após conhecer Hogwarts.

Que nos aguarde o segundo ano.

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