quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

J.K. Rowling publica artigo no The Guardian: ''Não está na hora de deixamos orfanatos para os contos de fadas?''
















Joanne Rowling publicou ontem (17), no jornal britânico The Guardian, um texto em que aborda com detalhes a questão da institucionalização de crianças.

A causa, que Jo está envolvida há anos, levou à criação da Lumos, sua entidade filantrópica para acabar com este problema de ordem mundial.

No artigo, intitulado "Isn't it time we left orphanage to fairytales?" (Não está na hora de deixamos orfanatos para os contos de fadas?), a autora de Harry Potter conta os primórdios de seu interesse pelo assunto e alarma uma triste verdade: grande parte dos ''órfãos'' dos orfanatos, na verdade, não são órfãos.

Clique em Mais informações para ler na íntegra a publicação de Rowling, traduzida ao português por Gabriel Pimentel.

''Era uma fotografia em preto e branco em um jornal. Mostrava um pequeno garoto, preso em uma cama enjaulada em uma instituição residencial. Suas mãos agarradas no que parecia uma cerca de animais contendo ele, e sua expressão era agonizada. Não existiria a Lumos – a instituição de caridade dedicada em fechar instituições para crianças e os chamados orfanatos – se não houvesse tido primeiramente essa imagem. Eu conhecia o vergonhoso impulso imediato de virar a página, escondê-la, não olhar.

Eu poderia tentar justificar esse impulso dizendo que eu estava gravida na época, sentindo-me vulnerável e hormonal. A triste verdade é que minha reação instintiva para aquela fotografia poderia ser vista com uma metáfora para a atitude que permitiu o injustificável encarceramento de 8 milhões de crianças ao redor do mundo acontecesse, com pouca indignação ou comentários. Envergonhada daquela negação reflexiva de olhar, eu me forcei a virar a página de volta para a imagem e ler o artigo.

O artigo contava de uma instituição vinda dos pesadelos, onde crianças tão jovens quanto 6 anos de idade eram engaioladas na maior parte do dia e da noite. Eu peguei o artigo da página, e no dia seguinte eu comecei escrevendo cartas para todo mundo que eu podia pensar com influência nesse assunto.

Esses esforços levaram rapidamente ao estabelecimento da Lumos, nomeada em homenagem ao feitiço que criei em Harry Potter para trazer luz a alguns lugares sombrios e assustadores. Parte do nosso trabalho na Lumos é lançar luz na vida dessas milhões de crianças separadas de suas famílias, por razões de pobreza, deficiência e descriminação.

A chocante verdade é que a vasta maioria dessas crianças tem pais que poderiam cuidar delas. Elas não são órfãs. A maioria é colocada em instituições por famílias que são muito pobres para provê-las, ou por causa da falta de educação local e instalações de saúde, especialmente para crianças com necessidades especiais. A minoria que não tem pais, ou que ficar em casa não é uma opção interessante, são geralmente colocadas em instituições porque não há alternativa.

A ideia de qualquer criança sendo retirada de sua família e trancafiada, muito frequentemente em condições atrozes, é particularmente comovente nessa época do ano. Para crianças em instituições, a vida muito frequentemente é parecida com os contos de fada mais sombrios dos irmãos Grimm. Georgette Mulheir, CEO da Lumos, conta como em um Natal ela levou doces para 270 crianças em uma instituição especifica. O que ela descobriu lá foi uma pesadelo. Estava menos vinte e cinco graus do lado de fora, o aquecedor estava quebrando, crianças tremiam em suas camas, vestiam todas suas roupas e estavam enroladas em cobertores surrados.

Novamente, quando eu cito as estatísticas para pessoas que não são familiares com o assunto – 8 milhões de crianças separadas de suas famílias ao redor do mundo – elas ficam perplexas e desacreditadas. “Como isso pode acontecer,” elas perguntam, “sem o mundo inteiro saber?” A resposta é bem simples: quem é mais fácil de se silenciar do que uma criança? Especialmente uma criança com deficiência mental ou física, que é levada de sua família que foi convencida que é pelo bem da criança, ou cujo a única alternativa é assistir essa criança morrer de fome.

Hoje existe uma riqueza de provas cientificas que instituições causam nas crianças um dano mensurável e muitas vezes irreparável. Crianças institucionalizadas possuem uma chance muito menor de serem educadas e de serem fisicamente e mentalmente estáveis. Desnutrição é muito comum. Elas possuem uma chance muito maior de serem abusadas ou traficadas. Os efeitos em crianças menores é especialmente crônico, com muitas falhando em se desenvolver, ou morrendo.

O impacto de não ter amor e atenção de um cuidador dedicado é profundo. Pode impedir o crescimento normal das crianças, atrasos no desenvolvimento e trauma psicológico. Eu vi bebês que aprenderam a não chorar porque ninguém vinha para atendê-los. Eu encontrei crianças tão desesperadas por afeto que elas engatinhavam para o colo de qualquer estranho.

O dano é feito bem cedo, e ele é duradouro. Tiradas da sociedade, crianças institucionalizadas retornam ao mundo com suas chances de serem felizes e de terem uma vida saudável vastamente debilitada. Geralmente incapazes de encontrar empregos, excluídas da comunidades e com mais chances de ter um período na vida de pobreza e dependência.

Um ponto crucial é que esses efeitos terríveis se aplicam para crianças vindas de qualquer tipo de instituição, incluindo aquelas com muitos recursos. A solução não são murais bonitos, camas mais confortáveis ou ursos de pelúcia. A solução é: nenhuma instituição.

A boa notícia é que esse é um problema que pode ser totalmente resolvido. Baseado nos sucessos já conquistados em diversos países, a Lumos estima que a institucionalização de crianças pode ser erradicada globalmente até 2050 – no nosso tempo de vida.

Onde há investimento em educação inclusiva e saúde, onde famílias vulneráveis recebem suporte para pobreza, emprego, problemas sociais e médicos; onde existem lares provisórios, adoções ou outros cuidados familiares alternativos para crianças que não podem ficam com seus pais; e onde a cultura de institucionalizar é substituída por uma que prioriza manter famílias juntas, crianças podem se desenvolver de forma saudável dentro de suas famílias e comunidades.

Terminar com a pratica de manter crianças em instituições não é só uma necessidade moral: isso faz grande sentido econômico. É bem mais rentável dar suporte a uma criança em uma família do em uma instituição – e também reduz custos de longo prazo, já que essas crianças possuem chances bem menores de se tornarem dependentes [do Estado] quando adultas. Nós sabemos que nosso modelo funciona. Desde que a Lumos começou a trabalhar na Moldávia, em 2007, tem tido uma diminuição em 70% no número de crianças em instituições nacionalmente, apesar da instabilidade política crônica e de Moldávia ser o país mais pobre da Europa.

Na República Tcheca, enquanto o número de crianças sendo admitidas em instituições foi diminuído em 16% nacionalmente no ano passado, na área de demonstração da Lumos, eles alcançaram uma queda de 75% em admissões. É eminentemente possível que até 2020 não tenha mais crianças em instituições na República Tcheca.

Desde que a Lumos começou a trabalhar na Bulgária, o número de crianças em instituições foi reduzido em 54%. Novas admissões para instituições na Bulgária caíram 34%, e o número de cuidadores provisórios cresceu em 440%, de 357 para mais de 1600, provendo o ambiente familiar extremamente necessário para as crianças que iriam de outra forma estar em instituições.

Essa é uma época crucial para tirar crianças de instituições. Os compromissos feitos pela União Europeia, pelos Estados Unidos e pela Global Alliance for Children (Aliança Global pelas Crianças) – um grupo de doadores públicos e privados, e ONGs, das quais a Lumos é um membro chave – estabeleceram um importante precedente para outros doadores. Existe, agora, uma massa crítica de competência e evidências na qual todos podemos construir.

Milhões de pessoas ao redor do mundo querem ver um fim para essa prática danosa e desnecessário de institucionalização. Todos tem um papel a cumprir nesse respeito, que é precisamente a ideia por trás a campanha nas mídias sociais #letstalklumos lançada mês passado. Manter esse tópico vivo e conscientizar as pessoas é uma parte vital para mudar o futuro para essas crianças.

Eu recentemente me comprometi em me tornar presidente vitalícia da Lumos. É o meu sonho que, dentro do meu tempo de vida, o exato conceito de levar uma criança de sua família e trancafiá-la irá parecer vindo de um mundo fictício e cruel.


J.K Rowling. Presidente e fundadora da Lumos.

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